domingo, 20 de fevereiro de 2011




Meu Omoplata

Bem acomodado numa cadeira de boteco, daquelas “ergonômicas” de PVC as mesmas usadas nas igrejas de garagem para acomodar o rebanho, lembrei-me das cadeiras do McDonald's que foram projetadas para serem desconfortáveis. Duras e sem encosto para a omoplata, intencionalmente incômodas, não agrada ao usuário uma relaxada depois de encher a pança com aquele isopor, tudo em nome da alta rotatividade. Você chega, senta, come e não tem vontade de relaxar devido ao desconforto da porra da cadeira. Então você se levanta e dá lugar a outro trouxa, que vai fazer a mesma coisa que você e assim sucessivamente.

Alguém da área de fisioterapia que observava atentamente minha postura na cadeira e as sandices proferidas, prontamente me corrigiu.

- O termo omoplata está em desuso, o correto é escápula.

Com a sobrancelha esquerda arqueada pensei na reforma.

Pronto, a reforma biológica chegou e eu nem me liguei.

A onda agora é lançar reformas.

Ortográfica, jurídica, política, religiosa, agrária...

Agora além de ter que ficar antenado em tudo que há de novo, o que não é pouca coisa, temos que reaprender o que foi parcamente aprendido.

Mas de que adianta aprender alguma coisa se logo ela se tornará obsoleta e algum revisionista hiperativo resolve que as coisas estão muito paradas e deve realizar algumas mudanças.

Ei, ei, eeeeeeeeeeeeeeei..., Acorda! Você tá há duas horas olhando pro copo sem dizer nada! Tá maluco?

Naquele momento o especialista de plantão me fez refletir e elucubrar meu mais novo projeto:

Também farei uma Reforma.

Chega de só ler, nos momentos de procrastinação, vou escrever.

E começa com essa dissertação acerca da Alienação voluntária.

Quem sabe queimar meus livros, comprar dez metros de corda de varal pra amarrar os quatro cachorros que vou pegar na rua.

Partir pro mato onde se pode tomar banho nu e andar descalço.

Arrancar um toco pra fazer um tacape, lascar umas pedras e botar na ponta de uma vara pra caçar mamute.

Fogo com as mãos. Sem escova de dentes, sabonete ou xampu, mas tudo sem largar o Walden fechado.

Água encanada e ainda clorada é pra burguesinhas suquim de maçã e croaçã ...

Pensando bem, vou entrar pra alguma igreja e tem que ser daquelas de garagem. Voltar ao mesmo ponto de onde tudo começou.

Serei mais um cordeiro de deus sentado numa cadeirinha de PVC atento e obediente às sandices proferidas por algum picareta.


PS. Reforma ortográfica, deus agora é com "d" minúsculo!

Como diria Raul: “Vou entrar também nessa jogada e vamos ver agora quem é que vai güentar”